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My Books News

My Books News

Alexandra Lucas Coelho

25.02.24

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publico 

A ler:

E a Noite Roda 

Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012  

Passamos o dia entre a Cidade de Gaza e o campo de refugiados de Jabaliya. Fervilham de crianças, velhos e desempregados; carros amolgados, mercados e burros; pó, esgoto e cimento à vista; casas demolidas, casas cheias de balas. E como apesar de tudo Gaza é luminosa. Clarões escarlate que são buganvílias. Pontos de vermelho e violeta que são acácias, jacarandás. Lances de azul que são o mar. Há sempre gente na praia, pescadores, ra- pazes, crianças, apanham-se camarões, comem-se goiabas.
 
Não me lembro de descer uma das ruas até ao Mediterrâneo sem pensar como este lugar teria tudo se fosse livre. Foi um oasis de caravanas. Está na Bíblia, na arqueologia. Gaza quer dizer Tesouro.

Curtas literárias 20.02.2024

20.02.24

O meu mundo estreitou-se e passo os dias e as noites a tentar dar visibilidade aos ativistas pela Palestina e ao terrível genocídio a que temos assistido em directo, ou têm, aqueles/as que não viram a cara. 

Play - Gaza, Meu Amor 

RTP Play - Gaza Meu Amor

 

Por isso, não escrevi sobre a charlatanice dos Prémios Hugo deste ano, em que foram eliminados das listas de nomeações nomes como RF Kuang (Babel) e Xiran Jay Zhao (Viúva de Ferro). 

 

Ou sobre Spotify, que fez uma alteração aos seus termos de serviço, segundo a qual, tudo que era colocado na plataforma, passaria a pertencer à Spotify, para usar como quisesse (incluindo para criar conteúdos com IA). Tiveram de recuar, quando foram apanhados com a boca na botija. 

 

Anda por aí uma controvérsia sobre erotismo em livros "young adult", mas nem é preciso isso para a batalha dos livros banidos nos EUA. Banem livros e declarações de cessar fogo. Faz sentido.

 

Hoje liguei para a biblioteca, porque não me recordava de quando tinha de entregar os livros que requisitei.

Resposta: há dois dias atrás. Ups...

 

Capa do retrato «A biblioteca, uma segunda casa» 

ffms.pt

A Gorda - Isabela Figueiredo

20.02.24

A Gorda é o primeiro romance de Isabela Figueiredo e é inquestionável que marcou o ano literário de 2017. Imperdível, foi o que José Tolentino Mendonça disse da obra. E depois de o ler, tenho de concordar.

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A Gorda retrata a história de uma criança obesa - Maria Luísa, retornada de Moçambique com a sua família e retrata os diferentes períodos da sua vida, numa jornada de autoconhecimento, até à vida adulta.

Humilhada pela sua condição desde menina, vive isolada, mesmo entre a família que não deixa de a lembrar que precisa de perder peso.

Por tudo isso, A Gorda é também um olhar sobre a sociedade portuguesa e como o preconceito que molda/tolha a vida de pessoas diferentes, seja pelo peso, pela cor, pela doença... 

 

A vitória dos solitários não tem testemunhas e torna a solidão mais só. Ninguém nos olha com orgulho. Ninguém nos dirige uma palavra de apreço. Estamos sempre iguais na solidão, sempre os mesmos, e é por isso que ignoramos os sucessos e nos concentramos no telejornal, como se não houvesse louça para lavar na bancada. E depois lavamo-la. De manhã. Ou á tarde. Depois.

 

A escrita de Isabela Figueiredo é mordaz e inteligente, muito directa e crua.

Incrivelmente crua, na descrição do que é ser uma cuidadora de uma mãe doente. Penso que nunca senti um livro tão perto de mim. 

O mundo existe para a servir. Tão insuportável! Tem escaras no tornozelo e na anca, do lado direito do corpo, que ando a tratar com Betadine e pomadas. Gosto dela. Não a suporto. Quando morrer não me resta mais ninguém. Nunca mais morre. Não morras. 

 

Apesar de autobiográfico e escrito na primeira pessoa, A Gorda, pela sua honestidade a tratar temas universais - solidão, amor, sexo, lealdade, dedicação - provavelmente tornar-se-à um clássico da literatura moderna portuguesa.

A História de Roma de Joana Bétholo

20.02.24

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A História de Roma, de Joana Bértholo, é um romance que nos leva a uma viagem através da memória e da identidade, pelas cidades partilhadas na história de um casal: Buenos Aires, Berlim, Marselha, Beirute e Lisboa.

 

A narrativa desenrola-se em Lisboa, onde a protagonista, uma lisboeta, guia o seu ex-companheiro por diferentes percursos da cidade, após um reencontro, depois de dez anos de separação.

Ao longo desses percursos, as memórias do passado comum vão sendo desvendadas, revelando as diferentes e até contrárias perspectivas que cada um tem sobre a relação e sobre a vida com um todo.

Joana procura respostas fora de si, ao mesmo tempo que tenta reconstruir uma vida e uma identidade.

 

A escrita de Joana Bértholo é poética, captando com precisão as nuances das emoções e dos pensamentos de Joana, uma bolseira precária que vai atravessando continentes, 

na busca de si

      contra estereótipos 

               amarrada ao seu passado

 

A História de Roma é um livro que nos obriga a reflectir sobre as nossas próprias memórias, sobre as expectativas de uma "geração mais qualificada de sempre", sobre as exigências sobre humanas que ainda recaem sobre as mulheres. 

 

E já agora, não posso deixar de notar que Joana Bétholo escreveu um manifesto feminista que parece saído do discurso de America Ferrara, mas que foi escrito antes do filme Barbie. 

 

A escrita de Joana Bértholo é inovadora e experimental, com linguagem moderna e directa, ou não fossemos já uma "geração nativa do mundo digital". 

 

Juntando Ecologia e A História de Roma, vejo em Joana Bértholo a mais fiel herdeira de Saramago. E não é exagero.

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